A musica me salvou de várias formas diferentes

Já fazia um tempo que eu queria contar um pouco da minha história, mas por ser um tanto quanto pessoal e até complexo falar sobre mim mesmo, achei melhor escrever aos poucos. Será como uma série, quando der vou completando ela.

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Minha formação religiosa é católica. Frequentei a igreja matriz desde muito cedo, cônego Alfredo me batizou ainda bebê, eu fiz a Primeira Comunhão, Crisma e frequentei as missas dominicais. Até coroinha fui!

A lembrança das dependências da igreja é vivida. Eramos garotos bagunceiros, mas tentávamos respeitar aquele ambiente, afinal, não tem quem não se sinta vigiado ao lado de tantos santos. Ouvir nossas vozes ecoando na catedral era “divino”, e por mais vazia que ela estivesse, sempre ouvíamos um “xiiiiiiu”.

Quando precisava me castigar, minha mãe também fazia um terrorismo psicológico: “quero ver se vai confessar isso pro padre?” Poucas vezes fui ao confessionário, e quando fui, me esforcei para contar tudo, os nomes sujos que eu havia dito, as mentiras, as injurias e até as vontades reprimidas. Ao fim, o padre mandava eu rezar alguns Pai Nossos, umas Ave Marias e me mandava ir com Deus. Na curva da sacristia minha mãe já estava esperando por ele para confirmar se estava tudo ok. Uma criação ao pé do ouvido, digamos.

Os dias se passavam assim, sob regras, castigos físicos e ameaças de forças divinas. Quando eu tinha 12 anos meus pais se separaram e minha mãe foi morar em outra cidade. Eramos dois bebezões, meu pai e eu, nem sabíamos cozinhar direito, muito menos lidar um com o outro. Inevitavelmente todas as regras cairiam por terra, quando queria ser legal, meu pai me tratava como um de seus chegados do bar e para me manter na linha, usava a violência.

Sem os olhos da minha mãe passei a me desafiar, e não só isso, também a experimentar as sensações que até então me eram privadas. Em pouco tempo me tornei o bad boy da classe e a cada nova reclamação; meu pai me castigava ainda mais severamente. Sem entender, me revoltei, tinha crises de ódio e passava horas no meu quarto escuro chorando e pedindo a Deus que trouxesse minha mãe de volta.

Inevitavelmente eu repeti a quinta série. Meus amigos que estavam comigo desde a pré escola continuaram e em seus lugares, uma nova turma de alunos, um ano mais novos que eu chegaram. Quando se tem 12 anos, um ano faz uma baita diferença. De bad boy, passei para bad to the bone e a direção da escola me transferiu para o período vespertino.

Era 1990, a população rural de Novo Horizonte era grande, o que mais se via nos campos eram pomares de laranja e limão. Um pouco de milho, um pouco de Café, muito pasto, muito gado e uma considerável quantidade de cana de açúcar aumentava gradativamente. Tinha muito trabalho no campo e a mão de obra rural era necessária.

Nas escolas estaduais, alunos que moravam na cidade estudavam de manhã, e a tarde, os alunos da zona rural. Nós, da manhã, maldosamente os chamávamos de “pé vermeio”, pois a maioria ia para escola de chinelo, e seus pés eram sujos de terra vermelha. Uma grande bobagem, já que eu mesmo era um deles, e apesar de morar na cidade, precisava ajudar meu pai em seu pequeno sítio.

Quando fui transferido para o período da tarde, os professores aconselharam que os outros alunos não falassem comigo, a fama de bad boy me perseguiu. Eu chegava na classe, sentava e desenhava. Desenhos aleatórios, super-heróis, Simpsons, mulheres peitudas, pirocas. Até alguns quadrinhos tentava fazer. Duas vezes por semana eu era obrigado a passar com uma psicologa. Alguém da direção vinham até a sala e anunciava com todas as letras Gilson, a PSI-CO-LO-GA te espera! (assim, em câmera lenta) Depois de um tempo descobri que os outros alunos achavam que eu era louco.

De certa forma, aquela mudança de horário me ajudou, mas também me retraiu. Passei a ser um molecão quieto e sinistro. Meu irmão, que é bem mais velho que eu, filho do primeiro casamento do meu pai, comprou um carro, um Gol. Quando eu não estava na escola, estava dentro do carro dele. Ligava o rádio, me deitava no banco de trás e ficava ouvindo musicas aleatórias, na maioria; modas de viola e FM. As vezes fingia que estava dirigindo em alta velocidade ou que tocava bateria.

No porta-luvas haviam algumas fitas k-7, nelas, musicas dos anos 80: A-Ha, Oingo Boingo, Pet Shop Boys e também alguns “rocks dançantes”: Daire Straits, Tina Turnner, Creedence, etc. No porta luvas ficavam as ferramentas, artigos obrigatórios para se ter dentro de um Gol quadrado 86. Eu usava duas chaves de fenda como baquetas, e o volante era a bateria.

Minhas “baquetas” acabaram estragando o revestimento do volante, então meu irmão, muito bravo, escondeu as chaves me deixando sem abrigo e sem onde ouvir as fitas K7. Meu pai tinha uma Brasilia velha movida à gás de cozinha, o rádio só sintonizava AM. Eu não gostava da Brasilia por causa do cheiro de gás, mas sem opção, passei a ouvir os programas da Rádio Globo, foi quando me tornei fã da Turma da Maré Mansa.

Não tenho como resumir essa história em apenas uma publicação, qualquer dia desses eu continuo ela…

(publicado no Jornal A Tribuna)

 

 

 

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