Uma cara sozinho caminhando na chuva deve ter boas histórias para contar

Ultimamente ando flertando teorias com realidade, mas sempre com uma pitada de delírio… “Certa vez rezei Ave Maria de mãos dadas com os Racionais Mc’s”. Os grandes chefes dizem que o segredo é o tempero. Ainda estou dosando para encontrar a receita certa.Crying-Sad-Boy-Gif-Barsaat-Shayari-Wallpapers-Hindi-Poetry-Rain-Barish

A Ave Maria com os Racionais não é delírio, aconteceu. Foi surreal, como da vez que eu precisei socorrer o ator Toni Tornado, quando ajudei o Herbert Viana em uma entrevista ou quando fiz glu glu yé yé com o Sergio Malandro. São histórias divertidas, mas sem relevância para estarem em um jornal. Talvez em uma coluna social, algo que os novorizontinos, pelo jeito, aprenderam amar, pois só assim se justifica a quantidade de publicações locais com conteúdos quase que exclusivos de uma coluna social.

Dia desses entrei num bar para me proteger da chuva. Não era um bar qualquer era um boteco, desses… “raiz” Pedi uma tubaína e um torresmo peludo. Um senhor se aproximou e me perguntou se poderia sentar-se ao meu lado, eu disse, claro, e grandão que sou, me afastei puxando a mesinha de ferro para que ele se acomodasse.

-Gosto de ler o que você escreve no Jornal!
Me disse o senhorzinho depois de dar uma bela talagada no seu “rabo de galo”.

Surpreso, já preparava aquele velho discurso da modéstia quando me lembrei que anos atrás eu prometi a mim mesmo que não recusaria mais elogios sinceros. Elogios são presentes, quando justificamos que não somos merecedores ou usamos daquela falsa modéstia, não estamos sendo humildes e sim, negando um presente. Pode ser só mais um delírio meu, mas naquela tarde chuvosa eu só agradeci o elogio e perguntei qual matéria ele havia lido “Todas” me disse de bate pronto

– Mas a última, sobre os prêmios maquiados da prefeitura foi a que eu mais gostei. É preciso coragem para desmascarar esses safados!

Antes que eu conseguisse agradecer novamente ele continuou:

– Perguntei para alguns colegas do carteado quem era você e descobri que fui amigo do seu falecido pai, somos quase parentes. Você é filho do segundo casamento dele.

Confirmei, pois aqui no interior existe essa “tradição” de descobrir a origem das pessoas. Apresentações feitas, passei a ouvir as histórias que aquele simpático senhor tinha para me contar e sem que eu notasse, aprendia que um assunto poderia ser interessante independente do contexto. O entusiasmo é o agente contagiante que prende a nossa atenção. Um bom contador de histórias sabe valoriza-la.

Logo, pedi um rabo de galo para molhar o bigode e quando notei, também estava contando histórias… não essas histórias que citei no inicio, e sim, histórias simples do cotidiano interiorano que harmonizavam com a minha companhia e com o rabo de galo! A vida no interior tem seus valores, e tolo são os que não percebem essas sutilezas.

Eu não precisava me justificar, mas fiz questão de dizer que a minha coluna foi criada para falar sobre cultura, algo que eu conheço um pouco, pois sou musico, mas frequentemente eu derrapava na curva e acabava falando de politica. Ele me contrariou, disse que o Jornal é uma riqueza cultural e que eu falava de política muito bem. Me lembrou do jornalista Paulo Falzeta que fora meu vizinho e citou: “Hoje, uma simples nota de óbito escrita por ele, já faz parte da nossa cultura” e me alertou:

– Você está muito ansioso, conte suas histórias e tente imaginar alguém as lendo daqui 20 anos.

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Levantou, me deu a mão e brincando disse que precisava ir, pois seu alvará havia vencido. E sob a chuva mansa, saiu caminhando lentamente.

Novato que sou, entrei em parafuso sobre a responsabilidade que é escrever em um jornal e sobre a postura da qual eu deveria refinar. O fato é que, a partir daquela conversa, passei a ver essa coluna de uma forma diferente. Não somente como um espaço de utilidade publica, mas também como um documento que um dia poderia servir como referência de algum momento do passado.

No meio tempo entre esse encontro inusitado e a correção final do artigo, um amigo me enviou fotos de uma edição do jornal Gazeta da Tarde de 1984. Aquelas folhas velhas e rasgadas eram apaixonantes, eu tinha apenas 8 anos e o jornal já era escrito e distribuído por pessoas que caminhavam sozinhas pela chuva com muitas histórias para contar.

Se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva ao seu lado, não corra, molhe-se.

(Publicado no Jornal A Tribuna NH)

 

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