“Musica boa mesmo era no meu tempo”

A crise no mercado musical teve inicio em 1997 quando o CD se consolidou no mercado nacional e “digitalizou” a musica. Foi o inicio do fim, concretizado anos depois com o MP3. Seus inventores não faziam a menor ideia, mas a evolução tecnológica acabaria com uma industria até então estável.

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O disco de vinil não foi/é, somente um plastico moldado à forma que uma agulha reproduzisse as frequências ali contidas. O vinil foi a primeira matéria física que tornou possível vender a musica, algo até então restrito. Ouvir musica só era possível nas rádios e em apresentações ao vivo. O vinil abriu o mercado e influenciou outros ramos de atividades, tais como, estúdios, gravadoras, produtoras, e as extintas lojas de discos. (lembrei da Globo Som)

Músicos, na época, temeram perder seus empregos para o vinil, pois ao invés de irem nos shows, as pessoas poderiam comprar um toca disco e ouvir suas musicas preferidas quantas vezes quisessem sem sair de casa. Felizmente foi o contrário, o vinil valorizou os músicos e as apresentações ao vivo. Vinil é muito legal, aquele encarte grandão, o cheiro de coisa antiga… não dá pra confiar em alguém que diz não gostar de vinil.

Em 2009 o MP3 transformou a musica palpável do vinil e do CD em um arquivo de 5 megapixels. Você não precisa mais ter discos para ouvir musica em casa, mas precisa ter no minimo um smartphone. Sendo assim, podemos considerar que as fábricas de vinis deram lugar para as fábricas de computadores e afins. Tratando-se de manufaturamento industrial, ok. Mas e a musica? Como ficou? – Livre, leve e solta para ser o que quisesse sem nunca mais precisar seguir os padrões da industria capitalista.

A musica hoje, pode ser até caseira, desde que bem feita; e com um pouco de investimento, o musico pode promove-la e através das redes sociais chegar exatamente até as pessoas que gostam daquele tipo de canção que ele faz. É simples, aperte o REC e conquiste o mundo sem sair de casa.
Na teoria era pra ser “a evolução musical dos anos 2.000”. Na pratica… “bugou”.

Aquela industrial que se sustentava vendendo musica não resistiu ao impacto do MP3, afinal, como concorrer com algo que é grátis(?).
Esse impacto cessou os lançamentos midiáticos e logo potencializou o saudosismo e o consumismo dos órfãos dessa industria. De artigo de museu, o vinil se transformou em produto “gourmet” sendo a única mídia que se mantém valorizada na pós era digital. Artistas da época de ouro do vinil e seus herdeiros ainda lançam velhos e novos trabalhos na bolacha, pois vende-se razoavelmente bem. Enquanto isso, distribuem de graça o MP3 para garantir uma sombra no oceano virtual da internet. Esses mesmos “antigos artistas”, ainda hoje, mantem uma incrível audiência virtual, e por acaso, são os mesmos artistas que tiveram seus discos massivamente enfiados goela abaixo dos consumidores na época das grandes gravadoras.
Como disse Steve Jobs (…) “As pessoas não sabem o que querem até que você mostre a elas”.
Pergunto: Eram realmente boas musicas ou nossos ouvidos se moldaram para aprecia-las? Porque quando ouvimos algo novo temos a necessidade de comparar com algo que já ouvimos antes?

“O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?” – Hoje somos totalmente autônomos nas nossas escolhas, mas invés de pioneirismo, a tal liberdade gerou preguiça, comodismo. Antes você abria a boca e lhe enfiavam um prato de feijão frio goela abaixo, você olhava para o lado e todos estavam amando aquele feijão frio. Hoje a maquina de feijão quebrou, ótimo, podemos escolher o filé, peixe crú, figado ou até um belo prato de merda! Mas curiosamente muitos ainda preferem o feijão frio.

A crise também atingiu outros setores que fazem parte da musica: Instrumentos musicais, especificamente a guitarra elétrica, que teve queda de vendas registrada em 80% nos últimos 5 anos. Seria o início do fim da guitarra? Um instrumento que foi usado e abusado de forma insistente, massante e repetidamente em quase todas as canções dos últimos 50 anos e… perdeu espaço! Que bom, talvez tenha perdido a atitude também e precise ser reinventada. Um cara cabeludo com uma guitarra em punho não vende mais aquela “velha” imagem jovial, pelo contrário.

Enfim, muitos reclamam dos atuais lançamentos da industria fonográfica nacional que ainda esta juntando os cacos para se readaptar aos novos padrões digitais. Eles não arriscam, investem somente em artistas que já deram certo no cenário independente, mesmo que muitos formadores de opinião considerem artistas B ou de talentos questionáveis – o que importa é estar “bombando”.
Ainda bem que você tem o subterfúgio de pegar seu smartphone, por seu fone de ouvido e em segundos prestigiar o lançamento mundial de uma nova musica que te agrade. Que talvez se torne a nova tendencia, novos timbres, novas atitudes. Imagina, pode até ser o embrião de um novo estilo musical prestes a explodir? Mas você não dará chance para essa canção “estranha”, pelo contrário, você vai abafar a chama de novidade dizendo: “Musica boa mesmo era no meu tempo”.

(publicado no Jornal A Tribuna NH em 16/02/2018)

 

 

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